terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Uma rara doença (Ramiro Calle)

Uma rara doença (Ramiro Calle)

Era um homem eminente, profissional, social e politicamente. Mas um dia sentiu que começara a padecer de uma doença muito rara. Então, veio a saber que num longínquo país vivia um médico de incomparável sabedoria, e mandou-o chamar.
- Dar-lhe-ei tudo o que me pedir se for capaz de me curar – disse o doente.
- Nesse caso, e antes de o examinar demoradamente, diga-me como sente a sua doença.
O doente disse:
- Quando os outros me elogiam, não sinto orgulho; quando falam de mim, não me sinto agraciado. Quando ganho alguma coisa, não me sinto feliz por isso e quando perco não fico triste. A vida e a morte, a riqueza e a pobreza, a fortuna e a desgraça são a mesma coisa para mim. Quando estou em casa sinto-me como se estivesse em viagem e quando estou no meu país sinto-me um estranho. Desde que padeço desta rara doença, perdi todo o interesse por me tornar rico ou famoso, não me interessam os títulos, a fama nem a reputação, assim como também não me preocupam as normas nem me interessa a tomada de poder, nem a queda do governo, e muito menos os políticos. E não me afecta o humor dos que me rodeiam. Por causa da minha rara doença não posso continuar no meu cargo público, nem dar seguimento aos meus negócios, nem ser pai de família. Qual é o seu diagnóstico? Como me pode curar?
O médico examinou o doente demorada e cuidadosamente, e disse:
- Posso ver que no seu coração há paz e que lhe falta muito pouco para ser um verdadeiro sábio. Seis das sete cavidades no seu coração estão completamente abertas, mas uma permanece ainda fechada. Este bloqueio é a causa do seu verdadeiro mal, que consiste em considerar a libertação da mente e a iluminação como uma doença rara. Só o senhor será capaz de abrir essa última cavidade, assim que se aperceber que a doença rara que sente se chama sabedoria.

Até nós mesmos podemos ficar surpreendidos com a nossa própria evolução espiritual e assumi-la como uma «doença» quando os modelos sociais estão nos antípodas da maturidade espiritual. Nesta sociedade, o neuropata é o equilibrado e o equilibrado é o neuropata.
fonte: 
"Os melhores contos espirituais do Oriente" 
de Ramiro Calle ( a esfera dos livros )
(pág. 330)

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