Inclino-me, não por protocolo mas por íntima necessidade, perante a memória de Papa Francisco, homem raro num tempo que prefere o ruído à consciência. Faz hoje precisamente um ano que morreu, e a medida da sua ausência continua a crescer, como certas evidências que só o tempo confirma.
Havia nele um sopro de profeta antigo, desses que não precisam de elevar a voz para se tornarem incontornáveis. Não ocupou apenas um lugar; expôs-se nele. Falou da justiça como quem a atravessa, da compaixão como quem a exerce, do diálogo como quem reconhece no outro uma dignidade irredutível. Deu à ternura um rigor inesperado, quase austero, como se a delicadeza fosse uma forma exigente de verdade.
Dirigiu-se aos pobres, aos migrantes, aos esquecidos, não como pretexto, mas como presença. Nomeou a ganância com precisão, o populismo com lucidez, a indiferença como violência sem rosto. E fê-lo sem aparato, com a sobriedade de quem sabe que a autoridade não se proclama, exerce-se.
Jesuíta, viveu sob o signo do discernimento. Evangelizou como quem serve. Conseguiu falar para lá dos muros da Igreja sem jamais abandonar o seu centro. Atingiu crentes e não crentes, não por diluir o Evangelho, mas por o tornar reconhecível na vida concreta. A sua voz nunca precisou de volume; bastou-lhe a nitidez.
Nas Jornadas Mundiais da Juventude 2023, deixou entre nós uma alegria exigente, uma forma adulta de esperança. Em Gaza, persistiu no gesto discreto de telefonar, como quem recusa que o sofrimento se torne anónimo. Na janela da Basílica de São Pedro, na sua última bênção pascal, houve menos despedida do que entrega.
Fica o essencial: a fé sem justiça é oca, a paz exige custo, e o Evangelho só se cumpre quando desce ao gesto. Um ano depois, já não é a sua voz que nos falta; é a coragem de a continuar.
~Luís Galego
fonte: Luís Galego