terça-feira, 21 de abril de 2026

A Continuar


Inclino-me, não por protocolo mas por íntima necessidade, perante a memória de Papa Francisco, homem raro num tempo que prefere o ruído à consciência. Faz hoje precisamente um ano que morreu, e a medida da sua ausência continua a crescer, como certas evidências que só o tempo confirma.


Havia nele um sopro de profeta antigo, desses que não precisam de elevar a voz para se tornarem incontornáveis. Não ocupou apenas um lugar; expôs-se nele. Falou da justiça como quem a atravessa, da compaixão como quem a exerce, do diálogo como quem reconhece no outro uma dignidade irredutível. Deu à ternura um rigor inesperado, quase austero, como se a delicadeza fosse uma forma exigente de verdade.


Dirigiu-se aos pobres, aos migrantes, aos esquecidos, não como pretexto, mas como presença. Nomeou a ganância com precisão, o populismo com lucidez, a indiferença como violência sem rosto. E fê-lo sem aparato, com a sobriedade de quem sabe que a autoridade não se proclama, exerce-se.


Jesuíta, viveu sob o signo do discernimento. Evangelizou como quem serve. Conseguiu falar para lá dos muros da Igreja sem jamais abandonar o seu centro. Atingiu crentes e não crentes, não por diluir o Evangelho, mas por o tornar reconhecível na vida concreta. A sua voz nunca precisou de volume; bastou-lhe a nitidez.


Nas Jornadas Mundiais da Juventude 2023, deixou entre nós uma alegria exigente, uma forma adulta de esperança. Em Gaza, persistiu no gesto discreto de telefonar, como quem recusa que o sofrimento se torne anónimo. Na janela da Basílica de São Pedro, na sua última bênção pascal, houve menos despedida do que entrega.


Fica o essencial: a fé sem justiça é oca, a paz exige custo, e o Evangelho só se cumpre quando desce ao gesto. Um ano depois, já não é a sua voz que nos falta; é a coragem de a continuar.

~Luís Galego


fonte: Luís Galego






terça-feira, 14 de abril de 2026

Ser Sensato


Há uma expressão antiga, repetida por quem acredita: «Deus escreve direito por linhas tortas». E talvez nunca tenha feito tanto sentido como agora.

Confesso que, num primeiro momento, estranhei. Um norte-americano a suceder a Papa Francisco? Pareceu-me, no mínimo, improvável. Hoje, porém, vejo nisso outra coisa: não uma escolha óbvia, mas uma escolha simbólica. Talvez até necessária.

Não é tanto pelo que Leão XIV diz — é pelo que representa.

Vivemos tempos estranhos. Tempos em que a moderação soa a fraqueza e o bom senso a indecisão. Tempos em que parece obrigatório escolher um lado, levantar uma bandeira, assumir uma trincheira. Tudo tem de ser claro, definido, absoluto. Ou estás connosco, ou estás contra nós.

E, no meio deste ruído, perdeu-se algo essencial: a capacidade de distinguir.

Confunde-se um povo com os seus governantes. Julga-se uma nação inteira pelas decisões de quem a lidera. E, assim, multiplicam-se os rótulos, os “anti” de tudo e de todos: antirrussos, antissemitas, anti-iranianos, anti-islâmicos, anti-ucranianos, anti-europeus, anti-africanos, anti-chineses, anti-americanos. Como se o mundo pudesse ser reduzido a blocos simples, a categorias estanques.

Mas não pode.

A América não é apenas de Donald Trump. Nunca foi. É também de Leão XIV — e dos mais de 300 milhões de americanos que pensam de forma diferente, que vivem de forma diferente, que acreditam em coisas diferentes.

Talvez seja essa a mensagem. Talvez seja esse o sinal.

Os líderes passam. Uns mais depressa, outros mais devagar. Mas passam. O que fica são os povos — complexos, contraditórios, impossíveis de reduzir a uma só ideia. E aquilo que hoje nos divide pode, amanhã, ser o que nos aproxima.

Por isso, talvez esteja na altura de voltar ao essencial. De regressar a essa linha branca — invisível, mas necessária — que separa o ruído da razão. A linha da moderação. Do equilíbrio. Do diálogo.

Num mundo cada vez mais dado ao excesso, talvez o verdadeiro gesto radical seja, simplesmente, ser sensato.

fonte: Nuno Campos Inácio

sábado, 11 de abril de 2026

Ex ateu


Conheci Augusto Cury pela minha mãe, que me ofereceu um livro dele. Desde então que acompanho o seu trabalho e partilho a sua imensa paixão por Jesus.

meu mural

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Perspectivas


A perspectiva junto ao chão.


A perspectiva dos que servem 

o Senhor.


A perspetiva dos que têm 

a bacia suja, de servir os irmãos.


A perspectiva da humildade.


A perspectiva imensa 

do amor de Deus.


O silêncio.

A contemplação.

Santa Páscoa!


fonte: WhatsApp / Maria Viana

segunda-feira, 23 de março de 2026

Eu te ensinarei

 

A Verdadeira Vida em Deus

(Jesus)

...vinde e absorvei o orvalho da justiça restaurando vossas almas que estão a caminho da perdição; venho para cuidar de vós, venho em busca de Minhas ovelhas perdidas; Eu, que sou o Bom Pastor, vos verei perdidos e permanecerei indiferente?

Vassula, queres rezar por todos os que estão na perdição?

(Mensageira Vassula)

Agora, Jesus?

sim, agora;

Não sei o que dizer, Senhor.

Eu te ensinarei; ouve-Me e repete depois de Mim;...

(AVVD, 7 de março de 1987)

sábado, 17 de janeiro de 2026

E se o leme fosse delas?


A Igreja sob a lógica do Feminino


Antes de tudo, uma delicadeza necessária.

Este texto não propõe que as mulheres sejam uma extensão do masculino dentro da Igreja, nem uma réplica suavizada de modelos já gastos. Também não pretende ressuscitar o debate — tantas vezes redutor — sobre o sacerdócio feminino. Trata-se de outra coisa. Mais profunda. Mais silenciosa. Mais radical. Trata-se de imaginar o que aconteceria se a Igreja respirasse, pensasse e decidisse mais a partir do feminino.


Se as mulheres “mandassem” na Igreja, a primeira revolução não seria de cargos, mas de gramática. O verbo mandar seria, provavelmente, substituído pelo verbo cuidar. A autoridade deixaria de ser o topo de uma pirâmide para se tornar o centro de um círculo, onde a prioridade não é a norma que exclui, mas a vida que pulsa.


Uma Igreja com rosto de mãe seria, antes de mais, uma Igreja da Gratuidade. Veríamos o fim da contabilidade da fé, das balanças morais e dos méritos acumulados. Se a mulher é, como tantas vezes dizemos, a gratuidade em pessoa, a Igreja sob essa lógica seria um espaço onde o dom vem antes do desempenho. Não haveria “filhos teológicos” órfãos, esquecidos em armazéns de ideias descartadas, porque o olhar feminino sabe que cada intuição — como cada vida — precisa de tempo, colo e alimento para crescer.


O altar seria extensão da mesa, e a mesa seria extensão do mundo. A gestão eclesial deixaria de ser a topia do masculino — tantas vezes concentrada na manutenção do poder e na frieza do cânone — para se tornar uma economia do pão repartido. Se o leme fosse delas, a Igreja teria menos medo dos “partos teológicos”. O magistério não se moveria pela lentidão de quem teme errar, mas pela urgência de quem corre ao ouvir o choro de um filho.


A hierarquia maior seria a da caridade, não a do prestígio. Numa Igreja conduzida pelo feminino, a dignidade não seria um discurso bonito, mas uma prática quotidiana. Cairiam as velhas correntes de ferro que prendem a intuição e o carisma. A política eclesial tornar-se-ia uma política de entranhas: próxima, concreta, atenta ao detalhe do sofrimento que, no seu voo de águia teórica, o masculino tantas vezes não vê.


Não seria uma Igreja de “parideiras”, mas de profetisas. Mulheres que, como as discípulas de Jesus, não fogem perante o escândalo da cruz. Uma Igreja que deixaria de usar o feminino como adorno simbólico e o reconheceria como força estruturante. O sagrado sairia das sacristias fechadas e ajoelhar-se-ia ao lado de quem trabalha, de quem sofre, de quem gera a vida no silêncio.


No fundo, se o leme fosse delas, a Igreja parecer-se-ia mais com o Evangelho das Origens: um caminho de amigos e amigas, onde o único poder reconhecido é o de lavar os pés uns aos outros. Uma Igreja capaz de se olhar ao espelho e ver, não apenas um Pai, mas também o rosto maternal de um Deus que amamenta a humanidade com esperança.


Talvez o milénio da mulher na Igreja não seja apenas um desejo. Talvez seja a única via para que a fé não morra de aridez.


~Pe João Torres




segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Natal: uma Saudação Incómoda


Meus irmãos e minhas irmãs,


Faltaria ao meu dever se vos desejasse um "Feliz Natal" sem vos inquietar a alma. Recuso-me a oferecer saudações vazias, protocolares, presas apenas à folha do calendário. Por isso, entrego-vos os meus votos: profundos, verdadeiros e, acima de tudo, incómodos.


Que o Menino Jesus, nascido por puro amor, vos sacuda desta vida egoísta e cinzenta, onde falta a coragem das alturas. Que Ele vos conceda a graça de reinventarem a vossa existência através da entrega, do silêncio e da oração que não pede, mas que se oferece.


Que o Recém-nascido deitado na palha vos roube o sono. Que sintais o vosso travesseiro tão duro como a pedra enquanto não acolherdes, com verdade, o desalojado e o pobre que deambula pelas nossas ruas, órfão da nossa compaixão.


Que o Deus feito Carne vos pese no peito sempre que o orgulho ou a carreira se tornarem os vossos ídolos; sempre que o vosso projeto de vida for atropelar o próximo ou usar as costas do outro como degrau para a vossa subida.


Que Maria, que apenas encontrou estrume e palha para o Filho que carregava, vos obrigue — com aquele seu olhar ferido — a suspender as festas e os brindes até que a consciência desperte. Até que vejais, finalmente, as vidas que exterminamos nas margens da nossa indiferença.


Que José, rosto de tantas portas fechadas, vos confronte com o desperdício obsceno e com o exagero da nossa abundância. Que ele vos faça sentir a dor dos pais que choram por filhos sem saúde, sem trabalho e sem futuro.


Que os Anjos, mensageiros da paz, tragam a guerra à vossa tranquilidade sonolenta. Que o vosso silêncio cúmplice seja quebrado perante as injustiças, o fabrico de armas e a condenação de povos inteiros à fome e ao esquecimento.


Que os pobres que correm para Belém, enquanto os poderosos conspiram na sombra, vos despertem. Que percebais que a "Grande Luz" exige que nos levantemos e partamos. As esmolas de quem lucra não aquecem a alma, e o escândalo da riqueza especulativa ao lado da miséria extrema é um grito que chega aos olhos de Deus.


Que os pastores, vigilantes no silêncio da noite, vos ensinem a emoção do abandono em Deus. Que vos inspirem a viver pobres em espírito, porque só assim se morre rico perante o Criador.


Que, neste nosso mundo tão cansado, nasça finalmente a Esperança. 

Aquela que arde e transforma.


P. João Torres

(texto adaptado de D. Tonino Bello que serviu como bispo de Molfetta-Ruvo-Giovinazzo-Terlizzi de 1982 até sua morte em 1993.


fonte: P. João Torres






domingo, 28 de dezembro de 2025

No Natal há dois anos


Em Times Square e Quinta Avenida foram desligadas todas as telas que projetam as marcas de produtos mais importantes do mundo, e projetaram todas juntas pela primeira vez na historia a mensagem: Ilumine o Mundo se refletindo e colocando Jesus Cristo na parte central do Natal. É lindo o momento em que tudo se desliga e se acende aquela mensagem que encarna a ideia de amor ao próximo demonstrado no serviço ativo e constante. 
Santo Natal🙏

via WhatsApp - João Pedro Tavares

sábado, 29 de novembro de 2025

A face da terra será renovada


 

Reflexo no tempo


 

O tempo não se vê,  

mas deixa marcas na pele,  

no silêncio das casas,  

no olhar que recorda.  


Corre como rio,  

às vezes manso,  

às vezes furioso,  

sempre inevitável.  


No tempo cabem memórias,  

cabem dores e esperanças,  

cabem instantes breves  

que se tornam eternidade.  


E nós, passageiros,  

aprendemos a colher  

o que floresce no caminho,  

mesmo sabendo que tudo passa.  


O tempo não é inimigo,  

é mestre paciente:  

ensina que cada segundo  

é já uma vida inteira.


quarta-feira, 26 de novembro de 2025

sábado, 22 de novembro de 2025

Outono em Portugal


 

As vinhas tingem-se de fogo e vinho,  

nas encostas suaves do Douro e do Minho.  

Folhas caem como cartas de amor,  

escritas pelo vento com ternura e cor.


O Tejo reflete o céu dourado,  

Lisboa suspira num fado calado.  

As ruas cheiram a castanha assada,  

e cada esquina guarda uma alma encantada.


Nos montes do Alentejo, o silêncio é rei,  

e o tempo abranda como nunca o fez.  

O sol, mais baixo, acaricia a terra,  

como quem se despede sem fazer guerra.


Outono em Portugal é saudade que dança,  

é memória viva, é esperança mansa.  

É o abraço quente de uma estação,  

que nos ensina a ouvir o coração.


~Rui Morgado

#RuiMorgado